O que vale???
Não consegui evitar…andei a pensar sobre este texto…
O historiador Eduardo Bueno registra, em “Pau-Brasil”, o relato de um viajante francês e pastor calvinista, chamado Jean Léry, que conversou com um Tupinambá Indio brasileiro) sobre a exploração, certamente predatória, de madeiras. O diálogo não só revela a distância entre as duas culturas. O índio estava muito à frente do pastor colonialista.
“’Por que vocês mairs [franceses] e perós [portugueses], vêm de tão longe buscar lenha? Por acaso não existem árvores na sua terra?’. Respondi que sim, que tínhamos muitas, mas não daquela qualidade, e que não as queimávamos como ele supunha, mas delas extraíamos tinta para tingir. ‘E precisam de tanta assim?’, retrucou o velho Tupinambá. ‘Sim’, respondi, ‘pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que se possa imaginar, e um só deles compra todo o pau-brasil que possamos carregar’. ‘Ah!’, tornou a retrucar o selvagem. ‘Você me conta maravilhas. Mas me diga: esse homem tão rico de quem você me fala, não morre?’. ‘Sim’, disse eu, ‘morre como os outros’. Aqueles selvagens são grandes debatedores e gostam de ir ao fim de qualquer assunto. Por isso, o velho indígena me inquiriu outra vez: ‘E quando morrem os ricos, para quem fica o que deixam?’. ‘Para seus filhos, se os têm’, respondi. ‘Na falta deles, para os irmãos e parentes mais próximos’.
‘Bem vejo agora que vocês, mairs, são mesmo uns grandes tolos. Sofrem tanto para cruzar o mar, suportando todas as privações e incômodos dos quais sempre falam quando aqui chegam, e trabalham dessa maneira apenas para amontoar riquezas para seus filhos ou para aqueles que vão sucedê-los? A terra que os alimenta não será por acaso suficiente para alimentar a eles? Nós também temos filhos a quem amamos. Mas estamos certos de que, depois de nossa morte, a terra que nos nutriu nutrirá também a eles. Por isso, descansamos sem maiores preocupações’”.